Como criei o hábito de escrever diariamente por mais de 880 dias seguidos

Há tempos penso em escrever sobre hábitos e estratégias que funcionam para mim quando se trata de perseguir objetivos. Mas sempre tenho medo de parecer leviano em minhas colocações e transmitir ideias do tipo “você não faz porque não quer”, “qualquer um consegue”, etc. Não existe fórmula universal para resolução de questões individuais, nunca existiu, nunca irá existir. É sempre algo pessoal. Mas existe, isso com certeza, a possibilidade de pessoas se inspirarem em uma estratégia específica e adaptarem isso para a sua realidade. Aqui irei descrever o que faço para solidificar hábitos que considero fundamentais para mim.

Vou começar falando sobre o hábito da escrita. Eu escrevo diariamente, de forma consecutiva, há mais de 880 dias – independentemente do que aconteça, eu dou um jeito de cumprir essa tarefa. “Mas isso é apenas um diário, o que tem demais em ter um diário?”, pode-se pensar. Acontece que não é simples assim. Quase uma década atrás, eu já tinha o costume de, vez ou outra, anotar pensamentos que não eram necessariamente sobre mim… tratavam-se de observações mais pontuais sobre a vida em sociedade no geral. Isso no começo da vida adulta, com repertório mínimo e empolgação máxima para “atacar” os dogmas e costumes. Nessa época, eu ainda não sabia que, no fim, nossos ídolos ainda são os mesmos… e vivemos como nossos pais. Mas não irei aqui me estender a esse respeito.

Após meu ingresso na vida profissional, comecei a escrever pequenos artigos, que nunca publiquei, sobre design e processo criativo. Mas, como era tudo muito esporádico, os textos não ganhavam corpo e morriam ali mesmo, como rascunhos, sem substância. Eu queria desenvolver minha escrita porque entendia que era o jeito mais eficiente para expressar minhas ideias. Em conversas, eu pouco conseguia — e hoje não é tão diferente — exprimir meus pensamentos. Mas em texto eu era um tanto eloquente e sentia que as ideias fluíam de maneira mais natural. Só que nunca era bom o suficiente, de acordo com meu julgamento, para tornar público — claro que aqui há um tanto de perfeccionismo, necessidade de aprovação, medo de julgamentos, etc., etc. O mais comum dentre as pessoas que, em algum momento da vida, decidem criar algo e colocar isso no mundo.

Então era importante para mim desenvolver minha escrita até um dia considerá-la publicável. Mesmo imperfeita, totalmente imperfeita. Foi aí que resolvi usar uma estratégia que eu já sabia que funcionava para mim, no quesito “perseguir objetivos”. Eu chamo isso de “método do um pouquinho todo dia” — entre aspas porque sempre mudo a maneira como formulo a frase. Mas, como o próprio nome sugere, não é nada sofisticado: se você se forçar a fazer, nem que seja por 5 minutos diariamente, aquilo que você deseja construir, é impossível dar errado. Ou, como eu também gosto de colocar: tudo que você faz um pouquinho todo dia dá certo no final.

Como eu sabia que isso funcionava para mim? Graças a um aplicativo muito popular chamado Duolingo. Nesse aplicativo para aprender idiomas, existe um sistema de ofensiva simples: você entra, faz pelo menos uma lição (algo de no máximo 5 minutos), e isso é suficiente para manter viva sua sequência de dias de aprendizado. No Duolingo, eu já praticava inglês todos os dias há quase 2 anos. E, ao longo desse tempo, eu transferi o hábito para outras áreas da vida. Por exemplo: criava à mão um calendário de 30 dias para fazer atividades físicas. Comprometi-me, certa vez, a todas as manhãs fazer meia hora de aeróbicos ou percorrer, no mínimo, 2 quilômetros, caminhando ou correndo. Essa era minha meta mínima. No final, eu voltava ao calendário e marcava um X no dia como sinal de concluído.

Esse calendário específico acabei repetindo duas vezes; ele se tornou uma ofensiva de 90 dias. Nos últimos dias, eu corria 5 quilômetros quase todas as manhãs. Essa é a mágica da meta mínima: você vai começar, provavelmente, fazendo apenas aquele pouquinho estipulado, mas chega um momento em que o mínimo se torna apenas uma base, algo que você sabe que é simples e realizável, mas também sabe que pode fazer mais — e você vai fazer mais. Porém, é de extrema importância não mudar a meta. Assim como o aplicativo Duolingo nunca mudou sua política de “uma lição por dia é suficiente para você não perder sua ofensiva”, você precisa deixar que o mínimo possível exista para que o máximo que você pode dar flua naturalmente — não tem como falar de hábitos sem cair nessas frases de efeito que parecem tiradas de um vídeo de coach no YouTube; desculpem.

Mas então, sabendo que isso funcionava para mim graças ao aplicativo de idiomas e a outras ofensivas pontuais que eu tinha criado, comecei minha ofensiva que chamo de Escrita Livre. A meta é, até hoje, bem simples: não importa como (em um pedaço de papel qualquer ou no celular), todos os dias preciso escrever o mínimo de um parágrafo — de 3 a 5 linhas de texto. Ao longo desses mais de dois anos escrevendo, recorri a ela várias vezes para não perder minha ofensiva. Sempre que a situação complica — estou na rua, emergência médica, passei o dia todo fazendo outras coisas e só lembrei às 23h50 —, eu conto com a meta mínima para que o número no cabeçalho do caderno continue aumentando e eu possa sentir que não deixei a peteca cair.

E aqui alguns hão de pensar: “por que simplesmente não parar de contar? O mundo não vai acabar se você passar um dia sem escrever e só voltar a fazer no dia seguinte, ou na semana seguinte”. Sobre isso, tenho duas coisas a dizer. Primeiro, o fato de manter a consistência e seguir contabilizando cada dia me faz sentir que ainda estou ganhando dentro do jogo que eu mesmo criei — é totalmente subjetivo e individual; a neurociência certamente tem sua explicação, mas não quero trazer nada disso aqui. Seguir dessa maneira funciona, e não quero mexer no time que está ganhando. Segundo: quem garante que o mundo não vai acabar? Vai ver as páginas do meu caderno são como os músculos de Atlas.

Caso você, leitor, queira testar o método do um pouquinho todo dia para tirar do papel algum projeto, faço algumas observações pontuais: reitero que é muito importante criar uma meta mínima plenamente realizável, dentro da sua realidade; se necessário, tenha um “plano B”, como fiz com o exercício físico — coloquei alongamentos ou flexões em casa, porque sabia que, em alguns dias, por motivo de saúde ou outro, eu não conseguiria sair para correr; prefira calendários feitos à mão e cole-os em um lugar visível na parede do quarto — e não esqueça de marcar o X em cada dia. O X é muito importante, pois cria um laço sensorial entre a atividade e a ofensiva.

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