“Viva somente o presente” é uma proposta absurda à condição ontológica do ser

Certo dia fui tomado por grande ceticismo acerca de uma ideia contemporânea amplamente difundida: viver o presente, pois nada existe além do presente; que se viva o hoje, o agora, pois o futuro não existe; e que se ancore a alma no instante e se sinta sua plenitude, pois ele é tudo o que há. Criamos até técnicas para isso, como o mindfulness.

Então me peguei pensando em algo que estremeceu minha alma. De repente, a ideia de viver o presente de maneira plena e deixar de idealizar o futuro tanto quanto possível me pareceu absurda. Pois quando o momento imediatamente sentido é repleto de confusão e angústias, mas precisamente este instante é absoluto, definitivo e tem seu fim nele mesmo, o que fazer com a vida? É certo que o futuro é totalmente hipotético e que o passado é apenas memória. No entanto, se o indivíduo não permitir que sua psique mantenha sua estrutura natural, que parece constituída por uma espécie de linha do tempo completa, na qual tudo já existe, do nascimento à morte, e forçar a interrupção desse ciclo, ele poderá deparar-se com um abismo profundo demais para escolher continuar existindo.

 

E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte*

 

Pensemos nos momentos da vida em que nada parece fazer sentido. E não é necessário ir muito longe no exercício intelectual, creio, para conceber um momento como este. A decepção amorosa devastadora que dilacera o coração, a perda de um ente querido; para o profissional que ama e se orgulha do trabalho, um acidente que o impede de exercê-lo. São em tragédias assim que o futuro é totalmente necessário ao vivente. Totalmente necessário. Pois quando a alma jaz em tormento, é que a ideia de se ater completamente ao presente me parece absurda e cruel. O que não faria o homem ou a mulher nesta condição se lhe fosse negado o direito de sonhar, a capacidade de idealizar e depositar numa miragem sua esperança em uma existência menos sofrível? Sob tais condições, não restaria nada senão o desespero insano.

Somos constituídos do que passou e do que virá, inexoravelmente. Sem as reminiscências e a esperança, a vida não pode fazer sentido na maior parte do tempo. Uma vez que solidão, incertezas e tristezas acometem cada ser humano com muito mais frequência do que sentimentos bons. Disso me ocorre que, sob nenhuma hipótese, ancorar-se ao presente pode ser completamente possível para o homem. Porque o momento imediatamente sentido é repleto de finitude; cada segundo morre assim que o próximo se inicia. Dessa maneira, parece que a única forma cem por cento eficaz de viver unicamente o presente é morrendo junto com ele.

*Clarisse – Legião Urbana

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