O que tem acontecido com o cinema e a TV? Há tempos sinto uma inquietação irritante ao tentar assistir as novas produções. Não sabia descrever exatamente o motivo, apesar de já o presumir, ainda era vago – e somente, provável, um resquício do saudosismo banal que não gosto de assumir. Mas agora acho que posso nomear com mais precisão o porquê da minha dificuldade de contemplar o que o mundo do entretenimento audiovisual tem proposto. E acredito que é mais do que mera nostalgia. Chamei esse motivo de TikTokenização do cinema.
Vou usar como exemplo minha experiência mais recente, que foi a tentativa de assistir à quinta temporada de Stranger Things. Esta que é uma das maiores franquias da Netflix, certamente, e para os mais aficionados pelo gênero, a maior de todas as produções do streaming. Mas logo na metade do primeiro episódio da última temporada, já me veio a chata sensação que tem se tornado comum, a mesma que me tomou quando fui ver Truque de Mestre: 3º Ato, um completo e absoluto tédio – completamente normal, não fosse o fato de que são franquias que gosto. Do tipo que empolga antes mesmo do lançamento, que você acompanha os trailers e aguarda com expectativa pelo lançamento.
Outra coisa que faz minha experiência desagradável a ponto de desligar a TV ou quase adormecer no cinema ser ainda mais incomum, é o fato de que eu reconheci em ambos os casos o mesmo potencial narrativo das primeiras produções. Os personagens estão lá, a história parece tão interessante quanto sempre fora: simples, previsível, family-friendly, com boas sequências de ação e alguns diálogos dignos de nota.
Então, após refletir mais sobre o assunto, cheguei ao motivo do meu incômodo: está tudo tomado pelo ritmo e dinâmica dos vídeos curtos, TikTok-like. E para pessoas que não consomem esse tipo de conteúdo, passar horas sendo bombardeado de estímulos visuais e sonoros a cada 5 segundos é um verdadeiro tormento. O tédio que a TV e o cinema hoje provocam não é por falta dinâmica, mas o exato oposto, pelo excesso de transições, efeitos, piadinhas, explicações, referências… tudo ao mesmo tempo. Como se a série/filme não admitisse o menor vacilo da parte do espectador. Cada frame é um grito por atenção, as personagens de alívio cômico disputam em pé de igualdade com o protagonista.
A atenção é o ativo de maior escassez e, consequentemente, mais valioso da nossa época, e a indústria do entretenimento não quer perder um único grama do novo ouro.
Contudo compreendo que, para uma geração inteira de pessoas cujas mentes já funcionam em sincronia com o ritmo do TikTok, seria impossível vender uma obra com planos longos e diálogos densos como Bastardos Inglórios ou Clube da Luta. Quem poderia imaginar, nos dias de hoje, dramas como esses sendo sucesso de bilheteria? Vá lá que um estúdio compre um roteiro com cenas de 2 a 5 minutos de puro diálogo ou, pelo menos, sem mudanças bruscas em forma de alívio cômico. Mas parece irreal até cogitar a hipótese de aprovar orçamento para quase 20 minutos de pura tensão, como a cena inicial de Bastardos Inglórios. Isso tudo justamente porque, na verdade, não há público suficiente para que arrisquem o investimento.
Assim chegamos a um cenário dramatúrgico onde tudo é meio cinza para quem funciona em um ritmo diferente daquele que é vendido nas redes sociais.
Receba informações, ferramentas, dicas e reflexões sobre o mundo pós IA.