dEUs: a projeção dos valores individuais como entidade suprema

Tenho refletido ultimamente sobre como as pessoas religiosas expressam de diferentes maneiras as mesmas crenças, mesmo quando fazem parte da mesma religião. Quero dizer, quem nunca viu, em um grupo de três indivíduos praticantes de determinada doutrina, divergências acerca das proposições que aquela fé específica impõe? E, com frequência, o entendimento difere-se em termos absolutos, implicando diretamente na maneira como cada um exerce sua devoção aos textos sagrados.

Vou usar um exemplo banal, coisa do dia a dia, mas não nos deixemos enganar pela superficialidade do hábito, pois não são as grandes questões filosóficas (como existência ou não de livre-arbítrio) que moldam o comportamento das massas, que impacta a vida prática. Então pensemos sobre o consumo de bebida alcoólica. Dentre três cristãos convictos, não raro vemos: um que se abstém totalmente e diz ser essa a verdadeira vontade de Deus, outro que bebe doses pequenas em ocasiões especiais e acredita que assim não está infringindo as normas da fé, e um terceiro que não deixa de tomar sua cerveja no final de semana, pois entende que isso não configura nenhuma penalidade aos olhos de Deus. Quem está com a razão somente o próprio Cristo poderia dizer. No entanto, certo é que cada um desses três, que no fim acabam representando três grandes grupos, à sua maneira, defende com rigor a forma como exercem e expressam sua crença. Exercício semelhante pode-se fazer acerca de outras trivialidades como sexo antes do casamento, divórcio, relações homoafetivas etc.

Ao decorrer da minha reflexão sobre isso, percebi que sendo abrangente a quantidade de questões sobre as quais divergem os fiéis, cada um pode, efetivamente, fazer sua própria colcha de retalhos a partir do que os textos explicitam e cobrir-se com ela. Formando para si uma política totalmente personalizada de valores morais inalienáveis e absolutos. Mesmo sendo todos praticantes da mesma religião e comungando dos mesmos princípios. E aqui há de se pensar “é justamente por isso que existem diferentes denominações, diferentes doutrinas”, mas me refiro ao indivíduo, a cada pessoa que devota sua vida a Cristo e que, em seu íntimo, reconhecem nEle a presença e palavra de Deus. Somamos a isso o fato de que quando se trata da prática ocidental, apesar das divergências doutrinárias, cristão é cristão – quero dizer, em geral não vivem em conflito, reconhecem uns aos outros.

Dito isso, para mim se tornou impossível não questionar: se no fim das contas cada indivíduo tem seu próprio conjunto de regras e, na verdade, serve a elas, qual o papel de Deus em suas vidas? Lembremos também que a pessoa religiosa não apenas é impactada pela fé, mas a utiliza como parâmetro para analisar, interpretar e julgar a sociedade. Assim, seja na questão da bebida ou do relacionamento de outrem, cada cristão muito provavelmente tem sua própria colcha de retalhos moral, seja para se cobrir, seja para lançá-la sobre as pessoas ao seu redor. Isso me leva a refletir que o papel de Deus aqui é apenas ser uma desculpa conveniente e sofisticada para a pessoa não precisar lidar com o peso do próprio julgamento, do conjunto de regras que ela mesma criou e que norteiam sua vida. “Se não é minha vontade, mas a vontade de Deus, uma entidade suprema, imaterial e onipotente, então não tenho o que questionar e devo apenas obedecer. Além disso, posso julgar a vida dos outros a partir destas premissas porque não se trata de minhas palavras, mas sim dos mandamentos dEle” – eis o que acredito que significa a religiosidade para o indivíduo e qual é o papel de Deus em suas vidas. É até como se não fosse mera coincidência o fato de a palavra deus ser cinquenta por cento composta por “eu”.

Não me sinto no dever, mas acho de bom tom acrescentar que o uso da religião cristã como exemplo é puro didatismo. É mais fácil expressar a ideia a partir de algo familiar a qualquer um. Mas a premissa do texto, creio, pode ser aplicada a qualquer outra religião. Até mesmo ao hinduísmo, que possui milhões de divindades. Mesmo os hindus cultuadores de uma divindade específica irão divergir acerca de como os rituais devem ser exercidos e julgarão uns aos outros de acordo com sua própria colcha de retalhos moral. E acrescento também que não tenho objetivo de colocar em xeque a validade de nenhuma crença. Essa reflexão é parte de algo maior: do meu reconhecimento do quanto somos dependentes de autoridades externas à consciência humana para nortearmos nossas vidas. A liberdade de escolha, a sensação de livre-arbítrio, ter que definir o certo e o errado, é um fardo esmagadoramente pesado para o homem. Por isso, cada um de nós, em última instância, coloca sob um deus os princípios que escolhemos seguir, como proposto por Dostoiévski. Os religiosos só o fazem de maneira mais evidente.

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