Vida, consciência e finitude são temas de constante reflexão para mim. Estou sempre a esboçar ideias a respeito. Compilei aqui alguns textos sobre “o corpo e a alma”, partindo sempre da pergunta: existe de fato um espírito (uma entidade distinta do corpo que permanece no universo após a morte terrena)?
Como pode a emoção ser produto da razão se essas duas forças travam batalhas mortais na psique do indivíduo? Se a vida espiritual fosse subjugada ao racional, o homem teria controle sobre o amor e ódio que lhe habitam. Mas, totalmente oposto, em certos momentos da vida o que a alma anseia e até transforma em ações é contrário em absoluto ao que a mente pensa.
Talvez a alma não seja nada além de uma força psíquica que opera em uma frequência subterrânea inescrutável, como exaustivamente explorado pela psicanálise, mas existe também a hipótese de ser uma entidade metafísica independente do corpo.
De qualquer maneira, razão e emoção caminham tanto em paralelo quanto em direções opostas. Como duas forças autônomas uma hora companheiras, outra hora inimigas. Enquanto habitam exatamente a mesma morada, dividem os mesmos recursos e esgotam os suprimentos vitais do indivíduo – que nada disso pediu e, como todo o resto da natureza, foi programado para seguir os instintos de autoproteção e perpetuação da espécie. Eis aí a fonte do adoecimento humano.
Quando nasce um bebê, a vida já está ali bem antes da consciência, é o que parece. Mas será que existe naquele projeto de pessoa algo além das forças biológicas naturais? Da forma como contam os religiosos, essa é a ideia que ganha forma no imaginário: junto com a primeira inspiração, no exato instante em que o ar infla os pequenos pulmões, uma entidade imaterial invade o corpo e ali passa a se hospedar. Desse momento em diante a alma faz do indivíduo sua morada temporária, moldando o hospedeiro e sendo também transformada por ele de acordo com suas ações ao decorrer da vida. Quando é chegado o momento da morte do corpo, a alma, outrora imaculada, agora deixa aquela casca e segue vivendo em outro plano. Assegurando a continuidade da existência do indivíduo que a lapidou.
A existência de desejos que contrariam a lógica é uma aflição contínua na vida do homem. Para além do bem e do mal, em determinados momentos, quando o sensato é não arriscar-se em atividades que colocam em risco a integridade física e a sobrevivência, o ser humano é tomado por um desejo impulsivo de fazer exatamente o oposto. Que é o caso dos esportes radicais. Algo que, particularmente, sempre me fascinou. Como pode uma pessoa ter tamanha coragem para desafiar a vida tão incisivamente?
Cito dois exemplos: wingsuit e surfe de ondas gigantes. No primeiro, a pessoa se lança de alturas quilométricas usando nada mais que uma roupa projetada para garantir planagem parcial, uma queda livre amenizada pelo atrito das membranas (que ficam entre os braços e o corpo e no meio das pernas) com o vento. Com esse traje os praticantes atingem velocidades que ultrapassam os 200 km/h enquanto realizam manobras do tipo atravessar fendas em rochas no topo de montanhas. No segundo exemplo, os surfistas desta modalidade fazem manobras nas maiores ondas possíveis, em mar aberto. Eles desafiam a força colossal do oceano, capaz de esmagar o corpo humano como se fosse uma folha de papel, usando equipamentos de segurança que são mais como acessórios cosméticos. Em ambos os casos, se perguntado a eles o porquê, dirão que é como uma força maior, quase uma necessidade.
Como pode haver no seio humano desejo tão contrário à razão e ao instinto? Se não há sentido lógico, não é realmente necessário, e também vai contra a força mais pungente do corpo, que é de autoproteção, de onde vem este anseio? Há de se considerar a recompensa que é a própria adrenalina e a dopamina. E é possível que o motivo não esteja além desta sensação. Porém, quando penso no prazer por ele próprio, tendo a crer que não é suficiente para explicar. Todo ser humano sabe como sentir prazer sem arriscar a vida de maneira tão evidente. E claro que há prazeres e prazeres: alguns mornos, outros mais intensos. E a experimentação de um tipo específico pode viciar o indivíduo naquela sensação ao invés de qualquer outra.
Mas não posso deixar de pensar que se é uma recompensa que contraria o instinto e a lógica, se vai contra o corpo e a razão, então a necessidade parece vir de algo que está além da compreensão. Como se houvesse no animal humano uma força estranha à natureza, que anseia por superar os limites do corpo – se preciso, sacrificando-o.
Um problema brevemente pincelado acima, agora um pouco mais desenvolvido: a questão não está na existência do espírito, mas no que acontece com ele após a morte do corpo.
Nunca houve uma cultura que aceitasse a morte como fim absoluto da existência. Esse medo poderia ser explicado pelo que a morte representa em si mesma: o mal irremediável, a expiração derradeira, o sono do qual não se acorda. No entanto, o medo deste fim só existe para o ser humano. Dentre todas as espécies, apenas o homem morre. Isto porque, acima de tudo, a morte é uma ideia, uma hipótese do vivente. Um animal não teme a morte porque, mesmo diante do maior predador, talvez já entre as garras da fera, ele não projeta o que poderá vir depois e não pensa no que está deixando para trás, o animal apenas luta para manter a condição de estar vivo. Sendo assim, a tartaruga que acabou de ser devorada pelo tubarão viveu mais de cem anos sem se preocupar com a morte um dia sequer. Para a natureza, o que chamamos de morte é um evento tão banal e orgânico quanto o cair de uma folha. É parte do ciclo, e absolutamente necessário.
Mas o homem pensa, projetamos a morte antes que ela chegue. Como tememos o desconhecido mais do que qualquer outra coisa, o fato do futuro nos ser oculto, nos mata um pouco todos os dias. Porém, nosso terror não é o fim do corpo, mas a morte da consciência (ou espírito). O homem necessita da transcendência porque lhe ocorreu o despertar para o ser. Isso, colocado de maneira grotesca apenas para finalizar esse texto, é o que dá origem aos deuses e seus céus. Do Paraíso à Valhalla, o ser tem que ir para algum lugar depois da morte terrena.
Receba informações, ferramentas, dicas e reflexões sobre o mundo pós IA.