“Não sou um robô”

A inteligência artificial está em tudo, em todo lugar, o tempo inteiro. Programas sempre prontos para fazer por você qualquer coisa que possam, principalmente quando se trata de escrever. E foi justamente por isso que meu hábito de escrever diariamente ganhou mais impulso, e nele empreguei mais esforços logo após ter contato direto com o ChatGPT (acho que o modelo 3.5, na época). Quando vi a capacidade do sistema de gerar sentenças coerentes a partir de uma base de dados “infinita”, senti que grande parte daquilo que entendemos por processo criativo autoral iria se perder. Como eu já dependia da minha criatividade para trabalhar, pensei: não posso deixar esse músculo atrofiar. E quando tudo na internet for AI generated, terei criado para mim mesmo um refúgio onde a criatividade impulsionada pela própria vida, a criatividade biológica, ainda resiste. Assim, vi aquele hábito que eu estava praticando há algumas semanas como minha oportunidade de garantir que a autoexpressão, pelo menos a minha, não fosse engolida pela facilidade trazida pelos diferentes modelos de IA.

Há de se argumentar que a inteligência artificial é apenas uma ferramenta, que ela não cria nada, apenas segue instruções. Concordo com essa visão, mas parcialmente. Acredito que a IA pode fazer ambas as coisas: ser ferramenta ou ser ela mesma autora. Um sistema com cerca de um trilhão de parâmetros em sua base de dados, e que tem capacidade para manipular essas informações de maneira tão minuciosa que pode gerar combinações nunca antes feitas, claramente está criando algo novo. Talvez não em essência — não a ideia central, o argumento —, mas sim a forma. No entanto, quão diferente é esse processo do trabalho que fazemos quando nos propomos a escrever sobre algo? Também vasculhamos em nosso repertório e fazemos pesquisas complementares até combinar palavras o suficiente para sentir que criamos algo do zero. Então, o processo da inteligência artificial, a depender dos prompts, pode, sim, resultar em textos ou imagens tão originais quanto os feitos por humanos.
“Mas se depende dos prompts, então está resolvido: quem deu os comandos foi quem realmente criou.” Mais uma vez, concordo em partes. Pois, a partir do prompt do usuário, o sistema faz inferências próprias, e o output é mais como uma sugestão daquilo que foi solicitado do que exatamente uma extensão do comando.

Mas a questão de a inteligência artificial ser ou não uma ferramenta, poder ou não criar no lugar do ser humano, para mim é algo de menor importância. E, na verdade, não acho que esteja errado, ou coisa análoga, utilizar-se desse recurso. Defendo o processo criativo autoral, primeiro, por questão de princípio: acredito que, para mim, como ser pensante, seria ruim terceirizar todos os caminhos do pensamento para a máquina. Segundo, porque acho que, de maneira geral, a criatividade humana é mais rica em todos os aspectos e não deve deixar de ser exercitada. Justamente por causa do fator subjetivo ou, se preferir, das emoções. Enquanto escrevo este texto, por exemplo, sinto fome, sede, cansaço, angústias e, quem sabe, até um tiquinho de coisa boa — e tudo isso afeta meu texto. Assim como afeta as pinceladas do pintor ou os versos do poeta. Como a inteligência artificial não sente, sua criação é fria e tão viva quanto a própria máquina pode ser.

Neste texto eu queria ser breve, então vou finalizar por aqui. Não falei nem 1% de tudo o que sinto que tenho para dizer sobre esse assunto. Mas “não sou um robô”.


Compartilhe