O preço da disciplina

Já escrevi aqui sobre hábitos. E no texto anterior, eu basicamente enfatizei apenas os aspectos positivos de ter estruturado minha vida em torno de rotinas pré-estabelecidas em um contrato rígido comigo mesmo. Hoje vou explanar um pouco do que sinto no momento em que escrevo esse texto, que é parte do preço que pago para conseguir levar uma vida dentro daquilo que, para minha existência, considero produtivo.

Quando você determina que fará X coisa todos os dias independentemente do que aconteça, depois de passar pelo período de provação, que são os primeiros meses até se tornar hábito, você começa a entender aquela atividade não mais como algo separado, mas sim como parte constitutiva da própria identidade. Nisso mora um perigo. Porque romper um pacto ligado à identidade causa uma dor distinta e mais intensa do que simplesmente deixar de executar uma tarefa externa à estrutura psíquica.

Hoje reconheço completamente que o hábito da escrita faz parte de mim. De maneira que flertar com a impossibilidade de escrever me causa grande ansiedade, pois soa como perder um pedaço de quem sou. Mas como assim impossibilidade? É que o contrato estabelecido comigo mesmo, mais de 900 dias atrás, determinava escrever diariamente. Não quando eu estiver inspirado ou quando tiver algo bom pra contar, simplesmente tem que ser feito todos os dias. Do momento que acordo até as 23h59, preciso pegar meu caderno ou bloco de anotação, parar e escrever pelo menos um parágrafo. Seja em casa, na rua, no hospital ou num enterro. No entanto, apesar da dramaticidade a que esse aspecto da localidade remete, não é exatamente difícil encontrar tempo para esboçar um pequeno texto. Mas é difícil sentir vontade, ânimo ou, se preferirem, motivação para fazê-lo (isso porque não costumo aceitar qualquer coisa – o menor parágrafo precisa ter alguma substância, precisa ser legítimo em termos de autoria).

Meu compromisso com este blog é publicar todo final de semana. E apesar de no caderno não faltarem ideias, hoje (domingo, 8 de fevereiro) todas as ideias parecem vagas demais ou talvez eu não esteja com a energia mental necessária para transformar um esboço em um conteúdo com suficiente coesão estrutural. Pensando agora, essa segunda hipótese faz mais sentido. Fato é que fecho os olhos e entro num lugar onde tudo que há é o mais puro branco em todas as direções. Onde deveriam estar as ideias, vejo névoas que ameaçam tornar-se palavras, e à medida que me aproximo, elas começam a desvanecer. Essa é minha condição atual em termos de inspiração para o texto deste fim de semana. Mas o pacto foi firmado, então algo tem que ser publicado.

As palavras aqui emergem quase mecanicamente por tratar-se de uma descrição experiencial imediata e sobre algo que para mim é absolutamente comum. Tanto o motivo quanto a sensação. Sabendo que consigo escrever dessa forma mesmo nesses dias intelectualmente nebulosos, me pus a redigir esse texto.

Acredito que apesar de ser quase mero desabafo, esse conteúdo tem seu valor. Pois a partir dele consigo compartilhar esse aspecto específico da minha estratégia de criar hábitos através de pactos firmados comigo mesmo. E apesar do meu drama, não sei se considero momentos assim como algo ruim. Nem por um instante passa pela minha cabeça arrependimento por estabelecer os compromissos. Acho que é apenas o preço a ser pago. E quais escolhas nessa vida não têm seu preço? A filosofia mais positivista há de dizer: “se cobre menos e seja mais gentil consigo”. Eu acredito mais em fazer o que precisa ser feito apesar das consequências, e lidar com as dores do processo. Como já esbocei antes, foi somente por ter forçado a escrita até virar hábito que consegui destravar alguns percentuais do bloqueio que me faz travar diante da ideia de exposição.

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